jeudi, juillet 02, 2009

- Dor de ouvido.
- Dor de olvido?
- Ou vi do
- De esquecer?
- De escutar
- Dói?
- Alguma coisa infeccionou. Entrou e parou quando estava saindo.
- Alguma coisa exige a tua atenção e não quer que tu esqueça.
- E eu esqueço, só sinto uma dor.

jeudi, juin 18, 2009

Eu quero morar numa cidade grande. Na maior cidade do mundo. Maior que o mundo. Muito além do mundo de cada uma das pessoas, do meu e tão vasto que o lugar não impõe e muito pouco define, apenas sugere em variadíssimas minúcias, a influência do meio.

Outra coisa muito boa na maior cidade do mundo é que as pessoas jamais sonhariam com o dia da estabilização, elas jamais desejariam tanto a morte como fazem todas as pessoas que eu conheço (existem duas exceções - além de personalidades que imagino sejam assim, mas não conheci pessoalmente: Um amigo que esta morando em Porto Alegre, por conta de uma boa idéia para a relação das pessoas com o meio e outro que esta trabalhando na América do Norte, arquitetando uma casa para um, para de vez em quando, naquele horário que todo mundo merece um metro quadrado).

Na maior cidade do mundo, nenhuma pessoa sonha que um dia tudo será definitivamente, até o último dos seus dias, idêntico a qualquer coisa que elas arranjaram agora para consolar de outra coisa que viveram e pegaram medo e ainda fere suas vaidades. Nenhuma pessoa deseja não mudar.

No melhor lugar do mundo, jamais a estabilidade, todos saberiam que estabilidade não é um valor, é uma decorrência e ainda: Muito suspeita de algo muito triste, pequeno e nadíssimo importante. Jamais a mudança como algo amedrontador e que ponha sem risco o seu penteado e seu infinito amor por si mesmo, com muita auto piedade.


Porque na melhor cidade ninguém sentirá medo de ser maior e mais amplo do que é, nem de ser plural, pelo contrário, as pessoas não lidam com certos tipos de limite e nem com a coisa mais feia que há nas pessoas, a mais desestimulante, tediosa e de morte: A vontade de organizar sua vida até o último movimento, portanto uma vida sem movimentos e desenhar todos os dias, os dias que virão principalmente, com a menor quantidade possível de conflitos, desafios, novidades, de modo que, enfim, suas preguiças estarão satisfeitas.

samedi, juin 13, 2009

Há vinte e três anos, Gabrielzinho nascia no kentucky.

O menino veio à luz abandonado por dentro. Um coração do abandono. Solidão nata. Charme da dor, hipersensibilidade e humor senil.

Um dia, a filha do Faraó o encontrou, enquanto se banhava no Nilo, e o educou na corte como o príncipe do Egito.

Não adiantou muito.


Aos 40 anos por dentro, aos oito, após ter matado uma mosca, levado pelo justo medo, ele se auto exila como punição e expio para uma culpa incontornável.

Nas montanhas geladas do exílio, funda o movimento Emo. Obviamente a sua culpa agora é maior e fundamentada. Mas ele não liga. Se enche daquela gente pálida e vai embora para o Hawaii, porque ele ama pegar praia à noite.

Mais quarenta anos por dentro (aos dezesseis) toma o seu primeiro trago federal e violento, então numa daquelas coincidências sem explicação, Deus, o próprio e em pessoa, lhe aparece e revela uma fofoca (se Deus fofocou, seria Rafa, também uma espécie de deus?).

Fofoca sagrada só se conta por metáforas, como faz o Mestre dos Magos. De modo que não digo tudo o que Deus disse. Só posso contar o seguinte: "Filho, este nome angelical não é à toa, seu tapado." (a voz sagrada, no MEU blog, é do Scott Weiland e não do vocalista da White Lies). Deus, na voz do Weiland, seguiu: "Procura Victor, um mafioso arrependido. Juntos vocês serão comissionados para libertar o povo".


Gabriel respondeu que só depois das 18h, porque não consegue acordar antes deste horário. Deus compreendeu que não adiantava discutir, virou os olhos para cima, riu, porque ele estava embaixo e sumiu numa nuvem de fumaça de gelo seco e luz estroboscópica.

Bom, não posso dar os detalhes, mas o que importa é que hoje, Gabriel, o Moisés, conduz o povo pelos pontos turísticos da Terra Prometida e é só diversão! AEEEE !

Epílogo com cenas do próximo testamento:

Enamorou-se de Jéssica e terão um filho chamado Jonas que iniciará uma nova tribo.

Epílogo contra fofocas que não contém a verdade dentro de si:

Terão o filho Jonas no futuro. FU-TU-RO.

Ninguém esta grávida.

mercredi, juin 10, 2009

Por nada me sinto deleitosamente bem. Como é gozo sentir esta comida (bem feita) chegar ao estômago, vazio por nove horas; Quanto deve ser interessantíssima a sensação de nascer, num outro exemplo; E como o prazer é pleno, intenso até quando é suave. Por nada, como só pode ser se sentir bem. Ampla e plenamente bem.

Suave seja a noite de vocês.

samedi, juin 06, 2009

Meu querido Sputinik.



Aos leitores, com amor, um satélite:


http://anedotasdeumcannes.blogspot.com/

O autor do blog é Juergen Cannes do Nascimento.

Há anos, Juergen é dos meus melhores amigos,
componente imediato do Les Chics, Beleza, Rebeldia, Dia a Dia & Camaradagem, o nosso grupo. Mas não é porque é meu amigo. Ou é, talvez eu não conhecesse seu blog.

O endereço Anedotas de um Cannes é regozijo. É festa e é bom.

Porque o texto do autor tem verve e ânimo, o assunto é interessante e destacado e o rapaz é um dedicado, crente, coração disposto, ávido, até inconsequente amante da leitura.

Seu verso é a leitura, leitor e livros, não a literatura, mas sua sintaxe é inspirada e as construções são como especialidade primorosa de cozinheira por tarefa do lar, mas com talento para ser chef, se quiser, se precisar, se for o tempo de trabalhar como chef.


O trabalho do tempo de Juergen é em uma livraria, uma megastore, como chamam, de modo que o objeto do seu interesse convive fisicamente com ele, à disposição e acesso. É um milionário da informação, repórter aventureiro, pesquisador de campo, conhece na própria matéria, filósofo empírico.

Bem alimentado, atento e talentoso (ambicioso também e não pede desculpas por isto) o rapaz criou Anedotas de um Cannes num formato que não conheço semelhante: Conta dos livros que conhece por motivações variadas, através da sua experiência como leitor ou reunindo autores e obras em atenção pitoresca.

Donc, conheçam, não é porque é meu amigo - se fosse apenas porque compõe o nosso Les Chics Beleza, Rebeldia, Dia a Dia & Camaradagem e ruim, eu não indicaria, calaria-me - mas é como conversa das boas, das raras.

vendredi, juin 05, 2009

Os publicitários têm certezas.

A pessoa nasce com uma fábrica de certezas, de oferecimento de resposta e de uma resposta, aquela que finda uma questão e não suspende o desaparecimento de uma pergunta por breve divisão do tempo. Esta habilidade é elemento da biologia espiritual de quem tem, coisa da essência da sua existência e não há dúvidas (vejam bem, não existem as dúvidas, muito menos assim no plural) faz curso de formação em Publicidade e Propaganda. Ou começa trabalhar na área, arruma estágio em agência e ninguém mais segura o publicitário infante (júnior).

A mãe arbitra (não tão convicta quanto o filho poderia dizer, ela tem outra profissão) "É de tanto ver TV. Eu insistia para brincar, se mexer, ver os amigos, ele nem me ouvia, a televisão sempre alta". O pai tem um palpite mais próximo da verdade "Ele tem jeito. Não vejo fazendo outra coisa".

E eu sofro e admiro, admiro e sofro, toda vez que o trabalho é construir junto com um representante da classe dos amigos das certezas. Não é ironia, admiro. Fico quieta, observo mais do que já faz a minha intuição natural (voilà, a intuição é do meu dom físico, químico, biológico, particular de nascimento). Eu sou da turma das perguntas, do "sim, mas duvido muito", do "mil possibilidades", tudo pode ser de modo que nada é, não há uma só resposta, 'mil coisas'.

O meu mundo, o mundo meu e dos outros como eu, não finda. Quem não é dos nossos não pode ter noção do que é nunca encerrar-se, conhecer o profundo significado do sem fim, nem limite. Demoramo-nos é um privilégio, um trabalho, uma dor, uma luta, uma missão, um sacrifício em nome do conhecimento, na nossa contribuição na construção do conhecimento, como cada natureza tem a sua e toda natureza dá num ofício.

Ensinem, publicitários. Abençoem deuses da propaganda ... Como são os deuses da casta dos cujo corpo fabrica certezas?

mardi, juin 02, 2009

Par sem par



e o quanto posso ser 'romance romântica', que é pouco, não porque o amor é pouco, mas porque não transo romance dengoso.


Não foi o motivo principal porque ele não parou de vê-la e nem o mais intenso no desejo dele que a quer, quer, quer e quer, como refrão de música forte e crua, música e pronto, sem floreio nem estrofes combinadas, quando há que deixar explícito, em voz sólida, espessa, grave, áspera e rigorosa que é tanto que quer, até mais do que a freqüência de ver, não foi o motivo nem o mais intenso entre o desejo, embora o componha, mas achava só encanto, e de um encanto que só, o comportamento socialista dela.

...


Chamou a atenção dela desde o início:
Como são lindos os gestos grunge dele.


E ela admite como certo que ele é uma coleção plural e múltipla de componentes livres e independentes entre si. Idêntico ao efeito que observa-lo produz nela, um processo muscular descrito assim: O ser humano, na vivência individual, reconhecer que seu corpo e sua essência e sua existência são um todo construído por partes infinitas (e livres, independentes e de mesmo valor embora diferentes entre si) que o próprio ser humano, como indivíduo, pouco desconfia. Desde que o viu, ouviu e naturalmente dedicou aos verbos dele a atenção mais espontânea, delicada e cuidadosa do mundo, ele freqüenta o melhor dela, e o pior e o mais misterioso. Inclusive, com mais ritmo do que ela o vê socialmente ou em propriedade privada. Tudo isto, mas como desafiam o milenar e ancestral ritmo do coração os gestos grunge dele.


...

E você, por sua escolha mais crua, de vontade, eleição de coração mesmo, você prefere uma rebelião ou uma revolução?

E você escolhe sobre as suas preferências (e a partir delas vai além) ou considera isto puro idealismo, utopia, um ato de romantismo e a vida indicaria que não existem o xadrez, as camisetas largas de algodão e os jeans que você chama de surrado, enquanto os utópicos e idealistas compreendem como jeans refeitos pelo trabalho do corpo próprio de quem usa?

Julga que o xadrez é uma ilusão?

dimanche, mai 31, 2009

Amarelo


variação do campo elétrico e freqüência


Encontrou um lugar formidável na copa da árvore junto da cobertura do edifício. Torre de madeira, tronco concreto: Parece impossível construir e difícil seguir, mas era verdade.


Era numa metrópole que começou do chão, na altura e vizinhança do mar, ao nível da natureza, uma porção de gente reunida aproveitava o Sol a partir de uma colina. Estavam ela e dois dos melhores amigos, dois meninos verdadeiramente bonitos, dos olhos dourados, e que desprezavam o sossego. Os três enlouqueciam de emoção vendo o vento solar, do qual participavam só pelas bordas, senão morreriam queimados. Isto até ela ouvir o barulho da porta da sala da frente.

O barulho da entrada de alguém, pela sala da frente, mudou a luz inebriante: Da definição da luz de sonho para a difusão de luz em fluido a partir de uma porção de luminescências distantes dos olhos, uma bela posição para vê-las: Fontes redondinhas e indistintas em cor de rosa, azul e amarelo opacos e um volume de luz espalhada, não circunscrita ao seu início. Naturalmente, ela misturou-se ao derramamento. Era um mar ou dança ou estar num vento ou num sexo com radiação eletromagnética pulsante, que não cega, mais polarização e cor do que brilho.

Sustentou-se na massa de fluido de luz, precisava saber quem entrou na casa. Movia-se por impulso próprio, na direção do barulho.

Aberta a última porta, a porta que separa o corredor, como poderíamos prever, a luz escorreu, espalhou-se. Da maneira como qualquer corpo fluido toma a forma do recipiente, a luz correu para a casa inteira.


quando eu te vejo eu desejo o meu desejo



Ele estava na sala de costura, esperava por ela, pensou que ainda não estivesse em casa. Ela chegou cansada e dormiu quando tomou banho e trocou de roupa.

Trocou a roupa e tomou banho porque chegou encharcada de chuva. As galochas viraram duas patéticas torres de água, comemorava não ter escolhido o seu 'trench-chic', quando se vestia, de manhã.

Eles riam destas coisa e do que ela diz sobre o tipo de guarda-chuva, que de uma forma certamente explicada pela física e pela tecnologia pluvial, reserva a água isolada em alguma parte da sua extensão. Então, quando as varetas são fechadas, a água reservada é despejada, em precipitação, direitinho onde esta o sujeito que carregou o guarda-chuva, durante todo o tempo, para se resguardar.

Ela reparou o que ele fazia.


habilidade de detectar a luz, detectar as imagens e conhecer - o cérebro é o órgão mais bacana da visão e um dos melhores tempos da luz.


Ela ama quando ele usa a tesoura de costura, dela, para cortar as unhas.

A harmonia entre a gigantesca e pesada tesoura e as mãos dele impressiona.


As mãos dele despertam nela vertigens de vôo e liberdade pois são corpulentas, têm bom gume, modificam a superfície por onde se movimentam e refletem, bem como a tesoura. Mas além, as mãos de homem narram e também vivem livres de qualquer dependência ou sujeição.

Ela não pode lembrar de encanto semelhante para ajudar contar de como são as mãos dele. E ela ama quando vê usarem a tesoura de costura.

O mal jeito, os erros no corte e a dor pela doma da grandiosa tesoura só deixaram o punho dela quase um ano depois de adquirida a ferramenta, num dia inesquecível e feliz.


the dawning



A mãe presenteou um aniversário recente com uma Singer Prêt à porter. Branca com detalhes em lilás. Era a primeira máquina disponível para ela.


Uma máquina para ela. Ela e a Singer Prêt-à-Porter, compartilhariam, então, de um nome, um título. Este gesto de privilégio inaugurava uma vivência e das mais importantes, das mais significativas. Um mundo muito desejado, com sujeitos, astros, luzes, energias de transformação, cores e órbita particulares.

Depois de receber a Singer, algumas encomendas e um emprego nos termos da sua formação acadêmica depois, a avó lhe telefonou para uma inesperada maravilha: Por todo um dia viram os endereços do fabrico. Entraram em oficinas, lojas, estúdios, escritórios, pelas ruas dos ofícios de construir com a inteligência, com o corpo e alguns instrumentos, gêneros de uso pessoal ou utensílios escolhidos pela estima dos fregueses e conforme suas mais caras e variadas vontades. Alfaiates, vendedores e fabricantes de tecidos, joalheiros, relojoeiros, sapateiros, marceneiros e estofarias, vidraceiros, tintureiros, iluminadores, tapeceiros, uma loja especializada em chá, o irmão mais velho - e proibido, sempre há um parente proibido - do avô que faz vinho e suco de uva - e as expressões e movimentos corporais mais charmosos do mundo, e finalmente pela cozinha de um rapaz que produz, ele mesmo, vários tipos de queijo.

Encerravam a viagem numa venda de aviamentos, a avó lhe disse que fizesse suas compras, não tivesse pressa, ela aproveitaria para ver um amigo. Reencontrou a avó e o amigo animados, falando e rindo muito, escolhendo onde os três jantariam. Apesar de casuais o assunto e o comportamento dos dois, reparou uma reverência na postura dos seus troncos e comoção na atenção dos olhos, anseio nos lábios e na cor das faces, uma atmosfera cingia o tempo em singularidade. Do lustre marrom escuro do casaco de pele, a avó lhe alcançou um estojo de madeira, encapado de couro branco, revestido de tecido felpudo caramelo descoberto numa listra na altura do fecho dourado - que faz um barulhinho estupendo - no estojo, a sua primeira tesoura de costura. Imponente, polida, refletia como um espelho; O cabo de plástico duro, pintado de azul marinho e no eixo entre as lâminas uma esfera achatada, em metal acobreado opaco, áspero, um dos lados desenhado com as iniciais do fabricante e o outro com as iniciais do nome da moça, dona da tesoura.

Estava completo o seu conjunto das ferramentas para o ofício.

O punho precisou de um ano para sujeitar a tesoura nobre e ainda mais nobre porque amada com o sentimento que se devota aos sagrados; Objeto de transformar com habilidade e força física; Instrumento de adultos e aqui adultos são os ditosos. Mesmo cativa e cativada a tesoura, no final de um dia de trabalho ela sente nas costas da mão lembranças de que é gigantesca, corpulenta e nobre. Ela mesmo ri da cena, sua mão entre os vãos do plástico parece mais gracejo que trabalho.


candela luz verde



Primeiro ele só cortava as unhas das mãos. Na verdade, só aparava, não cortava. Então o jeito com a tesoura foi mudando. Até soube usar nos pés, mas das unhas dos pés ele não costuma lembrar e ela o ajuda esquecer de tratá-las assim.

Ultimamente, ele ensaiou usar a tesoura de costura como uma espátula para remover os calos da pele, mas ela convenceu que seria um erro tremendo, danos para tudo quando é lado e sua demonstração realmente o convenceu.


Estranho. Ela pensa que é estranha a delícia intranqüila e francamente delícia que sente quando ele usa a sua tesoura de costura.

Ela pensa "eu deveria desprezar ele por este costume ! ... Eu deveria sentir que este costume demonstra que ele me despreza".

Algo antigo, imaterial e informe sugere que seria íntegro, e mesmo prudente, ela sentir-se diminuída, pouco considerada, por ele usar assim a tesoura dela. Ela se provoca: "Qualquer mulher, toda mulher, brigaria severamente. E diria que é evidente caso de falta de respeito e atenção. Ele não sabe que aquele é o meu tesouro?".

Ela já viu avó cheia de fúria e orgulho maculado num caso idêntico. E a mãe, chorando, já disse aos seus marmanjos: "Porcos chauvinistas, insensíveis !".

Outra mulher, toda mulher, qualquer mulher, faria um escândalo. E provável que realmente sentissem humilhadas e ofendidas, não apenas estivessem nervosas e satisfeitas por fazer um escândalo dirigido ao homem que amam (existem os que precisam produzir escândalos e isto piora quando amam. Dizem que é porque amam, mas não é verdade, são atividades independentes. As mulheres que precisam dos escândalos acham proveitoso oferecer alguns para um homem. Elas sempre calculam um ganho compensatório com suas cenas e no final da cadeia de ganhos e compensações, uma quase luz, falso brilhante, vigor forjado e sentido provisório para o nada das suas existências individuais pálidas e sem graças. São também mulheres crentes de que outras pessoas lhes devem muito e oferecem pouco).

De qualquer modo, ela sabia que praticava o seu primeiro erro contra um clássico do ofício: Amava o homem usando a sua tesoura, ainda que num uso impróprio e não via nisto nenhuma vileza, bem o contrário. Se houvesse um tribunal dos costumes, práticas e ética dos costureiros e alfaiates, certamente ela seria julgada e condenada por distração contra as crenças da classe.

Mas que nada. Ela vê e acha graça. E admira a harmonia entre a gigantesca e pesada tesoura e as mãos dele.

Ela já escondeu que acha a maior graça, mas depois descobriu que escondia para não interferir no momento. Claro, também para fingir orgulho.

Um dia ela perguntou: "Então, ficou boa?". Mas ela foi a primeira a rir.

dimanche, mai 24, 2009

Como é o nome do conceito da mistura entre verdade e real?

Não sei dizer a palavra sem algum tempo para procurar, mas o caso é que a seguinte frase é isto, de que não me lembro do nome, talvez porque não conheço suficiente das coisas que se sabe quando reconhecemos a manifestação ao mesmo tempo da verdade e do real, num jeito puro e infalível, voilà: Le succès n'est pas un but en soi. L'échec n'est pas une fatalité. Et l'important est d'avoir le courage de continuer.

jeudi, mai 14, 2009

Helena, vemos, é uma historia que não cobre a totalidade de nenhuma mulher.

Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.

. Drummond . Trecho de Antepassado .


Por que ainda ensinam e insistem para as meninas serem Helenas? Porque a rotina de Helena é considerada plenitude feminina? Por onde obtemos as certezas sem razão que cultivamos, tirânicas?

E Terezas, Rosinhas, Lorenas, Marias, Lígias, etc, são um incremento estranho ao natural? Leves, suaves, entre bonecas e aparições fantásticas, impossíveis em carne, será que é verdade, de tão delicadas, ou de tão selvagens, ou de tão rústicas, desapareceriam na seleção natural?

Então a mulher refinada pelas sociedades das maneiras inventadas depois das invenções tribais, criada em reinos de terras privadas, cercadas ou em cidades, esta mulher não tem uma origem? Uma origem sua, mas quase tão morena e tão dourada quanto Helena? E a origem de Helena também não é fabricada com sangue, caprichos e sofrimento?

Era uma vez Rosinha, Tereza, Lorena, Maria, Lígia, etc, que foi amante de um bárbaro. Ela somou suas inquietudes às deste homem e os dois eram uma explosão de músculos, cabelos, tons vibrantes e voluptuosos. Juntos fundaram um amor ao seu jeito, um sexo ao seu amor e um lugar para viver e desejar.

Os cabelos encaracolados de diva selvagem de Helena podem ser tão não belos quanto a musica folclórica alemã. E Rosinha tão fulgurante quanto o vermelho dos seus cabelos e sardas sugerem.

O mito de Helena é um mito. E ser mulher pode ser muito mais, pode ser como ser elemental e simples. Depende da pessoa mulher. Sempre dependerá da pessoa mulher.


Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Drummond . Verdade .

Cada mulher que faça o seu nome, conquiste o seu povo, conheça através da sua solidão e saiba sobre o seu sorriso.

Todas as tipicidades e qualidades femininas em qualquer cultura, geografia, criação, linhagem, condição e momento históricos e ambientais estão disponíveis para o conhecimento de todas, de qualquer uma que queira saber.

Cada mulher fabricará o seu fio e tecerá as suas malhas e este trabalho, que se chama liberdade, formará um desenho, peça autoral e costurada no próprio corpo.

"Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo."

Drummond .
Poema-orelha .


Helena é de cobre.

Helena é uma mulher e transcende a condição como um mineral. Nascida dos deuses primordiais, recebeu o atributo de ser um também um um corpo natural sólido e cristalino.

Os materiais que formam Helena se ordenam espacialmente em estrutura de cristal, evocando propriedades várias, exclusivas, claras, antecipadas e vindas. Helena não esteve em berços acolchoados, como os delicados filhotes humanos, é geológica.

De modo que Helena é um quelatado. Um mineral ligado a uma molécula orgânica (de aminoácido, carboidrato ou proteína) num procedimento desenvolvido pela indústria química (mas já executado pelos Deuses primordiais, os mesmos criadores das divindades do Olimpo) utilizado em nutrição animal, nos rebanhos de corte, de produção de leite, animais de força e o que mais a agropecuária precisar. O fim é otimizar a digestão destes minerais, evitando desperdício do alimento e de nutrientes e deixando os bichos mais resistentes. E ótimos. Para serem mortos em menos tempo que o habitual e comercializados por preços mais caros. A indústria farmacêutica também trabalha com os minerais orgânicos, na composição de cosméticos, mas é menos freqüente, uma segunda função dos quelatados.


Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)

ver?

Drummond . Rio em flor de janeiro . 1980


E Helena é dourada. Vai bem ao Sol e sua cor esta sempre por ela.

O sol e a pele de Helena são íntimos desde os tempos primórdios, é cor para infinitas gerações. O homem que tiver um filho com Helena, verá seus próprios genes e biotipo misturados às qualidades estéticas do Astro Rei. O homem que amar Helena terá o privilégio de conhecer a temperatura da verdadeira purificação.

No inverno, Helena será reluzente de ouro, como se nada tivesse acontecido às estações. Em pleno frio, no vento gelado (e ar em movimento contínuo nas temperaturas do inverno constrange o corpo mais do que montanhas de gelo) o corpo de Helena não enverga. Será extraordinária a lembrar calor e profusão de luz em plena suavidade das cores da estação cuja exuberância é em outros tons - Tempus Autumnus, este ocaso não é sem atividade, não é fim inerte, há energia, movimento e fruição em tons específicos que lembram os difíceis e intricados intimismo, criação silenciosa, concentração, profundidade e uma liberdade selvagem, quase rebelde, salto quase agressivo de animal que primeiro nega ser presa, então saberá, do seu próprio desejo, se gosta da entrega.

Muito diferente da procura do outro corpo nos ares de Verão, em volúpia cadenciada como a agitada mansidão das águas: Os imensos volumes de líquido reservado na geografia da Terra movem-se sempre, semelhante ao ar que ainda quando não pode ser vento, ainda assim é sem sossego de vapores, gás e partículas sólidas; Mesmo as águas de aparência mais fixa se movimentam, meneiam-se, comovem, decidem, removem num passo em compasso com a Lua - Sexo de gravidades.

A maior atração da Via Láctea é a dos líquidos e da Lua, pedaço do mesmo tipo de energia que une determinados astros, aglomerados, girando em torno de uma massa comum, pelos hemisférios celestiais.
A atração entre líquidos terráqueos e Lua tem a mesma natureza da energia que criou tudo o que há no espaço, assim como a vida que conhecemos e as vidas que não conhecemos, certamente mais numerosas que as sabidas.

A Lua não liga do líquido ser parte de um planeta, outra espécie diferente da sua e absolutamente desmembrado em inúmeros reservatórios com nomes e características várias, de modo que não cabe letra maiúscula de nome próprio ao título do seu amante líquido. São muitos nomes que o identificam (Atlântico, Mediterrâneo,
Donau, Senna, Nilo, Morto, Vermelho, Uruguay, Dos Patos, etc). A Lua ama a diversidade coerente do líquido, sua capacidade de tornar-se diferente a cada deslocamento e cultivar uma essência.

Pois nos dias de Sol, os gestos para o outro corpo são como o meigo e suave dos felinos e nos dias de inverno todo felino é selvagem, esquivo e liberdade à flor da pele. Doce será Helena enquanto o inverno propõe liberdade selvagem.

Helena é fertilidade sugerida em aparência saudável, humor e atrevimentos tropicais, sensualidade e altivez do Mediterrâneo, riquezas das Grandes Antilhas, enigmas e simplicidade dos ameríndios, a tradição em gestos leves dos indianos.

O corpo de Helena, assim como sua existência e companhia são alegria, formosura, ritmo para os quadris, passeios de férias, noites estreladas, roupas de algodão puro expõem o que ela elege na própria forma.


O Sol fixa as Vitaminas A e D, ajuda na absorção de nutrientes e na liberação dos hormônios., porém, Helena esta ao Sol há gerações, há milênios. Flambada.

Em 2009, Helena deve ter a pele murcha. Com o acúmulo de exposições, é provado, o Sol aniquila a elasticidade da pele e enfraquece a saúde deste tecido que é um dos maiores órgãos do corpo humano e bastante vulnerável. Em pessoas que não têm sardas (sarda é uma defesa) as manchas são irreversíveis e horrendas, tristes acidentes geográficos, parecerão celulites em textura e cor de queimadura por líquidos inflamáveis, como marcas de ferro quente em gado.

Em 2009, qualquer Helena aos 18 poderá parecer a múmia das primeiras Helenas.

A palavra cortada
na primeira sílaba.
A consoante esvanecida
sem que a língua atingisse o alvéolo.
O que jamais se esqueceria
pois nem principiou a ser lembrado.

O campo havia, havia um campo?
irremediavelmente murcho em sombra
antes de imaginar-se a figura
de um campo.

A vida não chega a ser breve.

Drummond . O fim no começo .


A música folclórica, ou a música tradicional popular ou tradicional rural, dos povos que geram Helenas cativam o espírito e são no mínimo bonitas. São simples, pontuadas por silêncios importantes e envolvem, infalíveis, seja para comover ou fazer vir individualmente o relaxamento do corpo e sensações de sonho que depois serão dança dos quadris ou reunirá as pessoas em celebração.

Os povos que geram Helenas dançam nos rituais oficiais. Muitos deles têm o darbuka e a kaval, a marcação e o sopro dos meus sonhos e desejos.

Há espaço nos lugares onde vivem os povos das Helenas. Seus tempos são extensos. Helena é concebida na luz esparramada e onde há fartura de azul, vermelhos e amarelos.

Como são lindos os olhos e as mãos dos homens de lá. Os povos que geram Helenas, além dos homens mais belos entre os povos e das paisagens amplas e ancestrais, têm as melhores culinárias do mundo.

Mas Helena já não vê nada disto. Para ela aquelas belezas todas são, por opção de trato, obrigações.

Helena faz questão de ter funções e ordens. Toda Helena é afeita ao cotidiano e por ele permanece e ao cotidiano se dedica, o que não seria problema, mas em sua escolha não há movimento, é um estar ali, como se algo ditasse que deve ser assim. Assim, não há amor nem vontade na opção, é pura prática, ordem pura, Helenas são utilitaristas antes e com mais talento do que qualquer outra coisa que há para ser.

Difícil uma Helena que não se resume ao cotidiano e à rotina e por este caminho elas são como soberanas do reino, pois comandando o que há de mais palpável e ordinário são presentes, freqüentes mais do que o governo das exceções, das raridades, das ocorrências de vida por onde o tempo não é ordenado e a imprevisão revela uma natureza magna, generosa, grande, livre.

Na vida pessoal e interior, as Helenas preferem o menor esforço, o menor movimento de vida, para compensar a presença incessante e sem deslocamento da sua rotina de Helena. E há o trabalho com as tarefas de exuberância morena - tarefas de não estragar o dourado da pele, não arriscar perder seu brilho e de ordenar o evidente, o comezinho.

Helenas não se mexem na existência, não mudam, nem questionam, nem pensam, nem tateiam suas essências. Não fazem perguntas à História, nem aos olhos dos outros, nem à Natureza. Não cultivam curiosidade e restringem até o humor (poucas práticas são tão subversivas quanto o humor).


vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negativo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.

. Drummond . Trecho de Antepassado .



Helena leva sua mãe muito à sério. Porque quer, Helena é assim. Assim como a mãe tinha sua mãe e à ela foi idêntica.

Helena considera com certeza mística a lista de assuntos entregues pela mãe e com os quais ela deve se preocupar e ocupar. São fixos e determinados, já não se sabe por quem. Helena concentra todas as suas ações pela lista.

Uma Helena é preocupada e ocupadíssima com dinastia, deveres no clã e tarefas cotidianas. Não interessam belezas que não a do seu corpo que também lhe toma tempo e padroniza suas ações e hábitos. Além do que, beleza para Helena não é questão de transcendência sublime, experiência radical das formas, gostos e prazer, conhecimento e percepção dos sinais dos segredos e mistérios. Helena sente objetivos com seu corpo, sua beleza é adequação, utilidade, posição, serviço, enfim, uma solução. É otimizar, como os minerais orgânicos, os quelatados.

Helena não sente prazer com devaneios, ousadias, gostos diversos e variados e mais: Não tem jeito para os outros, para a vida íntima e particular de seja quem for que não a própria Helena (além de sua mãe, é claro). É um egocentrismo autorizado pelo trabalho de ser Helena, no mesmo gesto de aceitá-lo como razão de ser, Helena depositou nele todo o seu ego.

Esta atividade coordenada e ordenada que é ser Helena, bem ao contrário do que sugerem sua cor, sua amizade com o Sol, seus cabelos longos e ondulados, a delícia das histórias dos lugares onde nascem Helenas, ao contrário, enfim, das suas curvas e sorriso, ser Helena é um empreendimento. Esta mulher é a própria burocracia das culturas ancestrais.

A energia de sua atividade deve continuar algo que há milênios parece ser assim. Mas é claro que nada é como foi no tempo imediatamente anterior a cada instante. E nunca passou pela idéia de nenhuma Helena reconhecer que milhões de anos antes, obviamente, tudo era absolutamente diferente ou no mínimo por um motivo diferente. E assim, fazia sentido. Sentido que já não faz. E se quer fazer algo pelo bem dos presentes, que faça algo com sentido presente. Helena tem medo do que não parece, esteticamente inclusive, o confirmado 'há milhões de anos'.

A única tensão em Helena é pretender este nome e seu prestígio limitado.

"Há algo de podre" na cena de Helena meditando, purificando, abençoando, atingindo o inatingível nos ritos de sua tribo. Tudo acaba no começo, são ações sem verbos (verbos têm efeitos múltiplos e penetrantes). São só gestos que chamam outros gestos, dos outros também, sem a participação da essência, sem natureza nem características, nem a comoção do coração inteligente.

A própria Helena, atarefada e abafada por sua crença, função e ordem, é quem menos sabe das coisas da sua tribo e da mágica possível que há nestas coisas. Helena é feijão com arroz em outras comidas, uma máquina de continuar gestos antigos, um livro de história formosamente encadernado e nunca mais atualizado desde sua primeira edição, num tempo que passou há tempos e alegrias e riquezas e importâncias e descobertas e gentes.

Porque nasceu e vive ali dentro, inconsciente, atarefada, maniática (mito e misticismo sem sentido são o mesmo que as manias, transtorno obsessivo compulsivo dos modernos, ocidentais e urbanos, percebem?) Helenas não podem fazer muito para desenvolver, aperfeiçoar, conhecer, provar com gosto e sorriso, compartilhar e até mesmo cultivar a cultura dos povos onde nascem Helenas.

Neste ponto esta em grave desvantagem em relação a Rosinha, a ocidental cor de rosa, a crença na ciência ensinada no colégio e os vestígios de outras crenças praticadas na cidade que Rosinha aprende operando somas;

Tereza: Bandinhas de Bayern + O rock do pop + O pop da arte + As aulas que tomou + Amigos que fez, mas hoje ela tem uma banda onde faz e compartilha;

Donau e lagos com seres encantados que só cabem em ballet de repertório. Romântica e doce, Lorena vestirá o preto, depois algo vibrante, depois o vermelho, depois outras composições até impensáveis, rituais inventados por ela para contar da mulher mutante e operária de uma edificação esplêndida.

Maria, frescor de floresta fria? Rococós de confeitaria? Que atenção e auto crítica Maria não tem que exercitar, constantemente, para não ser a coisinha mais piegas e enjoativa do mundo?!


Lígia tem a opção da modernidade contemporânea, ou da tradição, ou de somar as coisas, ou de tentar a fusão dos seus núcleos, ou considera-los antagônicos mas possíveis de formar uma unidade plural e maravilhosa, ou sei lá, como queria, afinal, tudo esta ao acesso pois que a bisavô de sua bisavô já praticava escolha, transformação e autoria.

São anos de questionamento sem deixar a lembrança da ancestralidade. Afinal, Donau e cisnes também são natureza e antigos.


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Helena cabocla tem cheiro de fumo. Inclusive no calor, quando a transpiração toma conta da sua pele, então seu odor de tabaco é de alta viscosidade e ela é recoberta por uma pasta marrom musgo, num acúmulo maior em suas esquinas e ângulos.

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Tarde, a vida me ensina
esta lição discreta:
a ode cristalina
é a que se faz sem poeta

Drummond . Lição .



Helena é o nome da mulher mais linda do mundo duas vezes raptada por enamorados e a maior aventura de Páris, um grande entendedor de mulheres.

Helena é fácil, entrega-se, gosta de ofertas e cabe em qualquer uma porque não tem vontade em amor. Se ocorre de ser amante, Helena não sabe o que quer e não faz a menor idéia de como saber.


No amor (e impossível que não seja igual no sexo) Helena não tem nada a dizer. E precisa de adjetivos, incapaz de formar seus próprios substantivos. Não conjuga verbos de experiências compartilhadas, muito menos com um homem, porque em Helena homem é função, como o seu nome.

Não sabe o que perdeu, pobre Helena, deixando de conhecer os homens, que fosse um homem, um que seu coração escolhesse por qualquer motivo relativo a algo deste homem e não de Helena.

Um nome é algo que introduz em um mundo e torna real uma vivência.

Um sítio de criações, conceitos, de sonhos sobre a realidade e de realidade procedente de uma idéia ou experiência que são origem de certa atmosfera. Há um mundo (e existe uma porção deles) produzido e animado exclusivamente e de forma simples, decorrente, pelo nome. Inaugurada a vivência, nos impregnaremos do que houver por lá, por escolha por desejo, por escolha por necessidade ou crença, ou o que seja que nos aproxima de um modo de existir.

Nomear é fazer vir e fazer ir, invocar e convocar; Também é despertar e sugerir sentidos e sons. Ter por nome é sinal e símbolo, conta dos adjetivos substanciais, da natureza e dos elementos. Conta da história pessoal e até anterior a pessoal.

O nome que se tem não anula a pluralidade, as estranhezas e os inesperados inomináveis (ninguém quer viver sem estas extensões, são deliciosas) mas nossas marcas dirão até o que desafiamos.


Helena, a mulher.


Helena é a mulher que toda mulher é impelida e provocada para ser. As meninas conhecerão o desafio quando chamadas para ser Helena, responderem seus nomes pessoais. E o primeiro insulto virá da comparação entre o seu título de identidade e a identidade de Helena. Tornar-se Helena é pertencer, renunciando a sua natureza íntima.

Helena é emblema e resignação. É a mulher da terra da cidade, do dia a cada todos os dias, das noites de repouso ou trabalho perseverante ou vigília devota. Fantástica, embora rotineira e mais possível do qualquer outra manifestação, embora irreal, à disposição do pensamento de toda mulher (e de quem da vida dela compartilha) quando percebe que lhe faltou qualquer coisa, a mais singela das coisas, que decerto pertence a outra mulher, outra de um tipo que seu nome não é por recusa, por natureza, por verdade ou distração faceira.

Helena é aquilo que em crença (crença particular e social, compartilhada entre mulheres e homens em sociedade) falta na mulher de nome seu, construído, próprio, para ser completa, decente e infalível, a que nunca se engana ou erra. É o nome que distingue a comparada inabalável nas ocasiões de perda, desfeitos em não existência o desejo, o sonho, a vontade, quando nem ninharia não há findo um plano, uma ânsia, um movimento, trabalho, uma afirmação.

Por todo desvio de um caminho querido há uma lacuna pessoal, dela invoca-se Helena. O mais provável é que Helena seja o próprio erro e que a falha pessoal contivesse a solução, mas o costume manda e o costume inventa a História. O querer do costume jura pelo tempo contado em acúmulo de séculos e esta entidade exerce mandado supremo contra o siso: Invoca-se Helena por reparo, emulação e salvação.

Helena é também o nome da culpa pelo descompromisso quando deixamos de planejar e calcular. E deixamos.


Deixamos.


Flanando, quietas, em tantas velocidade quanto o nome contem em si, usamos o tempo dedicadas ao tempo presente e aos espaços e às luzes; E às pessoas em seus tempos e ao homem do desejo sem tempo (sem tempo de marcação, nem de contagem, desejo liberto);

E usamos o tempo dedicadas ao saber, conhecer e experimentar; E pensar. Pensar muito, pensar demais, até querer pensar vazio, porque este caminho é só do desconhecido e de tanto em tanto causa arrepio. Pensar como o respirar. Até conhecer outros ritmos do respiro que pareciam guardados no corpo ou jamais imaginados, capturados numa coincidência, talvez o respiro abandonado no ar por outro corpo, talvez por um pássaro ou um vestígio de fotossíntese de uma árvore generosa, deixou solto no ar aquele jeito de lidar com o oxigênio para quem pudesse provar.

Deixamos como uma embarcação leve e pobre portanto sem intentos grandiosos, portanto sem sérios compromissos.

Deixamos com senso, mas senso estudado, trabalhado, fundamentado e não sugerido ou ordenado. Usamos o tempo dedicadas ao pensar à toa e por muito. Pensar e produzir ou só pensar.

Flanando, quietas, em tantas velocidade quanto o nome contem em si, usamos o tempo dedicadas ao tempo presente, edificando títulos pessoais e cada vez mais completos dos nossos próprios detalhes.

Feito pela própria pessoa, o nome é a mais sólida verdade e verdadeira preciosidade humana, jóia exclusiva da biologia de cada um. Humano, o nome próprio de uma mulher certas vezes parecerá pequeno, frágil, inútil ou pouco diante da vida onde as pessoas estão reunidas em grupos, intenções e necessidades.


Não há idade determinada, mas toda garota escolherá entre um nome pessoal (que pode começar por seu nome de registro) ou aceitar ser Helena que dificilmente não é a primeira instrução sobre ser mulher que as meninas recebem, em qualquer sociedade.

Não há idade determinada, mas o início da construção de um nome pessoal ou Helena ocorre nas primeiras idades da imaginação e inteligência, afinal é a decisão por experimentar as próprias tendências naturais particulares ou ser Helena, a mulher.

lundi, mai 11, 2009

Tu diz um segredo?



Por exemplo, um assim: Qual foi o dia em que a narrativa de histórias tornou-se Literatura, com letra maiúscula, cultivo, importância quase sem par e um troço tão bom?

Tu diz?

Eu juro que não espalho e pode acreditar.

Quem sabe, um dia, por descuido eu descubra sozinha.

Bom, talvez eu até já sei. O mais provável é que o meu palpite é quente (minha intuição é boa. Um dos melhores de mim. E olha que tem muita coisa em que sou boa. Nos esportes, por exemplo. E faço as minhas próprias unhas - das mãos, do pé não. O pé faço em salão. E costuro que é uma beleza, só um pouco demorada).


De qualquer forma, eu adoraria ouvir de ti.

Qual foi o dia? Quando foi que a narrativa de histórias virou esta linda Literatura, onde até o ruim é bem vindo e o maldito é precioso?





P.S.: Para quem posso perguntar:

. Para o grandão da academia?

. Para o ensolarado deus do surf?

. Para o rapaz do rock'n joy?

. Para o artista visual de lindos olhos de fome e corpo magro, de músculos em desenho de arrebatadora arte, que sente uma fome com efeito de buraco negro e é pelo desenho circular e de miolo infinito desta fome que ele vai. Vai navegando, girando, às vezes demora num trecho e ali faz o que quer, às vezes folga e até sonha, depois volta para o giro da fome de centro infinito e força de falta. Força de falta mas que leva ele mais do que os outros amam os seus olhos, quando vivem a sorte de vê-los. Para ele, faminto, tonto em torno da fome, ninado pelas artes, mas sem alento no acalento?

. Para o utilitarista?

. Para o mauricinho assumido?






Eu queria conhecer um biólogo.
De preferência da biologia marinha.
Bem concentrado e bem distraído.
Que não faz o cabelo e não é consumista dos consumos tipicamente femininos.
E se não é pedir muito, que seja feio, forte e feroz.


Agora, o mais bacana e delicioso seria se ele fosse muito, mas muito mesmo, o que ele é.
Simples, natural e curiosamente tudo o que ele é e gosta de ser, inclusive as dúvidas e fiascos. Isto seria tão bom que ele nem precisaria ser os itens do parágrafo anterior.

dimanche, mai 10, 2009

Na minha opinião, então, resumindo a (sem fim, nem resumo) discussão sobre a qualidade do artista que ouvimos, entre as pessoas que passaram juntas até às 16h e agora chamam uma a outra para discutir mais um tanto sem fim, nem resumo, deixo aqui a minha opinião, para o caso de alguém acordar às 04h desta madrugada louco (a) para continuar a conversa, sem fim, nem resumo.

P.S.: Pessoas amigas há no mínimo dez anos sentem adquirido o direito de discutir o gosto dos outros. Não reclamo, acho até um suculento e dinâmico movimento de vida. Mas temos que saber que somos assim.




Bilhete eletrônico enviado por mim à Daniela Ribeiro, para exercitar a minha liberdade, depois de ser julgada e condenada um monstro por seis amigos de infância e seus amigos.


lúcia carolina diz:

Copine, eu almocei com um pessoal, na casa de um amigo, aqui no Petrópolis. Fui cedo, fui eu também fazer algumas comidas do almoço, além destas coisas boas de Domingo, donc, levei uma porção de músicas.


Bom, tenho uma coisa para te confessar às cinco da tarde.

Acho que faz um mês, tu ouvia e falava muito sobre um autor, então eu pedi para tu me passar. Pois comprovei as minhas primeiras impressões sobre ele e tu tens que saber, porque tu é uma cientista e ama a sinceridade.

Copine, a figura do Leonard Cohen não me encanta e nem interessa.

Quando uma pessoa usa na sua identidade de elementos estéticos de um tipo conhecido e reconhecido de existência ('homem misterioso, em paletó e chapéu, silencioso, meia luz, voz rouca e um olhar profundo entre triste e sem saber fazer as perguntas que lhe interessam, desolado') bom, só é delícia se com tudo isto a pessoa tem algo de muito pessoal e real. Coisas dela mesmo, nem bonitas, nem feias ou bonitas e feias, coisas simples e reais. Aussi, é bom quando tem contradições e dúvidas. E incoerências. Eu não encontrei disto no L.Cohen, de modo que não me encanto por ele até hoje. (As pessoas não gostam de mim por isto. E até os meus pais gostam dele! O que tem a ver? Eles eram hippies ! Hippies e pop! Este senhor Cohen é pop?)

As músicas, acho sem ... existe PEGADA? Ritmo, sei lá. Falta uma força.

Compartilhar de melancolia, dolorosa ou terna, é delicado.

Por exemplo, tu não gosta do RadioHead e eu não simpatizo com a Clarice Lispector enquanto figura, embora seus textos sejam bons e bons e mesmo (no meu gosto, aussi). Para cada uma de nós, estas figuras (não suas obras) são nuvens de mal estar sentimental pessoal, não compartilhamos e nem sofremos do mesmo jeito que eles. Não entendemos. Inclusive sempre nos lembram de deliciosas idéias para prolíferos desfrutar daquele tempo sem Sol.

Quando eu quero ouvir dor, ouço o jazz, por exemplo. Mas o jazz é também o que ouço quando eu quero ouvir outras coisas, como leveza ou riso ou desejo ou filosofia.

No jazz tem sempre uma aproximação que até parece física entre a pessoa que faz a música e quem ouve. Sei lá, é um troço da música ter o movimento do corpo, um corpo real, cheio de defeito e força, beleza, vontades e músculos e também cheio de mal cuidados com o corpo.

Tem todo o corpo no jazz. E as notas parecem uma boca de homem sorrindo, abrindo sem juízo. Ou olhos em expressão de desgosto, sobrancelhas ferozes, ou coração perdedor, espírito sem sossego, mas dá pra ver isto ouvindo o jazz ! Tudo real ! E vigoroso. Tem histórias e pluralidade até no silêncio. E simples !

Eu gosto do RadioHead porque é como se olhasse um menino cheio de graças que naquele momento não sabe nem se saber e sofre. O Cohen e a Lispector me parecem pessoas sem capacidade de sentir o contrário do que sentem. Acabam soando monótonos e sem força.

Mas ouvir que ele é bom há quinze anos, de pessoas que eu respeito e de inúmeras outras, até dos meus pais, me faz curiosa. E penso, pode haver muito nos textos dele que eu ainda não pude saber. Talvez se eu souber dos livros, vou cuidar disto.

Mas as músicas, por conta da figura dele, estilizada demais, é totalmente sem apelo, nem gosto, para mim.

Eu gosto de verdade. Que seja feio, forte e feroz ou bonito, fraco e manso, ou feio fraco e manso, ou bonito e burro, mas que tenha coisas pessoais, contradições, certezas e cintilação. O Cohen e a Lispector são opacos.

(que pena que não foram apresentados, não é? ela seria a amante um pouco mais velha dele e eles trabalhariam juntos !)

Em tudo, merci por receber a minha opinião e quero sempre saber das tuas amizades musicais, minha cultivada e cult copine Dani Dani Hyde Ribeiro - um dani para cada sobrenome ;-)

Je t'embrasse.
Na minha opinião, então, resumindo o Domingo que ainda não acabou e quero ir mais por ele, (pelo Domingo), na minha franca conclusão, we shall autumning !

Autumn shall be.

E: É bom ! É bom, mesmo. Bom de prazer.
Eu não mentiria sobre isto. Sem falar que sou Verão, verânica e nascida em Verão. Mas sugiro, convido, participo: Outono é bom.

I shall be.


The end em Through The Looking Glass, do Lewis Carrol, é assim, encerrando o
chapter XII, 'Which Dreamed it?' :

A boat beneath a Sunny sky,
Lingering onward dreamily
In a evening of July -

Children three that nestle near,
Eager eye and willing ear,
Pleased a simple tale to hear -

Long has paled that sunny sky:
Echoes fade and memories die.
Autumn frosts have slain July.

Still she haunts me, phantomwise,
Alice moving under skies
Never seen by waking eyes.

Children yet, the tale hear,
Eager eye and willing ear,
Lovingly shall nestle near.

In a Wonderland they lie,
Dreaming as the days go by,
Dreamind as the summers die:

Ever drifting down the stream -
Lingering in the golden gleam -
Life, what is it but a dream?



Domingo, dia de tomar Sol, comer churrasco, dançar pagode e pensar sobre a natureza ilusória da realidade



Não sei porque
# 1



As filosofias orientais e as religiões todas estão sempre tensas com algo a adquirir. Tudo é caminho.


Não sei porque
# 1

Por que nada é? Sólido, elemento, presente, simplesmente é.

Por que não admitem a simplicidade e aproveitam o que há, o que há no sentido de instante?

Por que questionam o temporal e fenomenal com as histórias mais rasas e distantes do próprio corpo, da própria inteligência? E porque experimentam das ilusões seletivamente, como se uma estivesse correta e contivesse a verdade?

Por que não permitem que as ilusões sejam o que são: Puras e deliciosas realidades abstratas, possíveis, plurais e inventadas por quem acredita nelas, ou seja, só funcionam quando são autorais. Criadas por quem vive. Filosofias e religiões/crenças/explicações e sagrados tem que ser pessoais, só podem ser pessoais ou são fugas, escapismo das próprias perguntas e inquietações, além de medo da liberdade, de perder posses existindo livre.

Por que o eterno futuro dos samsara, da ressurreição, do dia do juízo final, dos serviços a um deus, nirvanas, mocsa, estado de perfeição,
Ayyavazhi, vida santa, evangelhos, espíritos que habitariam outros mundos e teriam respostas, todos se consumindo com estes futuros, perdendo seus tempos, seus corpos, suas experiências, suas idéias pessoais, suas gentes, seus mais delicados e ingorados sinais de humanidade?

As perguntas são as respostas.

E o resto é coisa que a gente inventa para fazer novos movimentos do corpo, do pensamento e dos dias. E para compartilhar com pessoas que apreciamos ou gostaríamos de conhecer. O resto é prática, liturgia do viver em grupo e do viver com elementos mil exteriores ao ser humano, a Natureza e o ambiente criado pelo homem (taí o Não sei porquê # 2, porque chamamos de artificial, com peso pejorativo, o que é criado pelo homem?)

.

Domingo é dia de tomar Sol, preparar almoço ao gosto e sem limite de tempo, oferecer drinks elaborados, sobremesa surpresa, reunir-se, dançar músicas longas, correr com um Beagle; Mostrar um artista que o outro não conhecia, conhecer uma música, três gostos, dois sentimentos, quatro informações e uma decorrência de idéias que não se conhecia; Correr muito com um camaradíssimo Beagle, falar a maior bobagem escondida, fazer mutirão para lavar a louça, escapar para ficar bem sozinho, aceitar depois de uns minutos a companhia do Beagle que saberá acompanhar de um jeito lindamente independente; Olhar coisas que não se vê, olhar as pessoas e pensar em como elas são e deixar elas serem o que são; Pensar num homem como único e tão simples, desejar que ele seja o que ele sonha e deseja ser e viver; Vestir como nos sentimos bem, cortar um molde muito bem elaborado; Pensar e sentir e viver a natureza ilusória da realidade.

samedi, mai 09, 2009

Eu não sou família, é certo. Não é da minha natureza viver sempre ou a maior parte do tempo num mesmo grupo restrito de pessoas, em apego incondicional. Eu acredito que o afeto, a amizade são espontâneos e tenho amor pela diversidade, pluralidade, pela crítica, auto crítica, conhecimento e liberdade (impossíveis em família) e pelos movimentos dinâmicos de encontros e convivência. Por outra, acho um tanto estranho, maluco, o gosto que as pessoas sentem em adorar e celebrar as outras que têm a mesma origem genética que a sua. Acho maluco mesmo, sei lá, não gosto.

Eu também não pude ter uma relação terna e pacífica com os meus familiares (e não tem a ver com a minha natureza que não se sente à vontade em clã). Eu gosto de cada um deles sendo quem são, mas eles gostam mais de ser função que pessoa. As famílias onde nasci são extremamente tradicionais, antigas, rigorosas e fechadas em si, na terra onde vivem, na religião que praticam e nos antepassados. Só quem nasceu em uma família assim sabe como é pesado e como é triste quando a tua natureza não combina com as expectativas e planos que haviam determinado para ti, antes do nascimento. Além de uma série de outras questões, não é o caso falar sobre elas.

Mas irmão é diferente, porque irmão se permite ser pessoa, além de função. Irmão é amigo e amigo é bom!

Irmão taurino comemora seu dia, hoje. Vida longa e cheia de vida! Cheia de vida, sua vida será longa.

vendredi, mai 08, 2009



Ver e escrever.

Eu queria ser paga para isto.



Mas eu tenho dificuldade em participar até de uma profissão. Apesar do meu coração até ser bom, sou insolente, inconstante, inquieta, trânsfuga e reservada.


E estrábica. Inclusive recebi tratamento na infância para aliviar o concentro das pupilas e hoje o meu estrabismo convergente é monocular, do olho esquerdo. É hereditário, minha mãe tem do mesmo. Fora isto, eu tenho algum astigmatismo. Considerável. Bem considerável. Mas ignoro e o astigmatismo gosta de mim e comigo colabora. Até porque não é acompanhado de nenhuma outra deficiência. Visão perfeita, em ângulo duas vezes particular devido ao estrabismo genético e ao astigmatismo cúmplice e camarada que estimula a minha imaginação e criatividade.

(Minha mãe têm mais de cinqüenta anos, meu pai mais de sessenta e nenhum dos dois precisa de óculos. Vesgas, mãe e filha, mas vemos)

Tenho um bom coração até (e isto é pessoal, não depende nem dos genes, nem do meio, nem da água ou da qualidade do ar) mas não sei fazer parte. Sei lá, uma soma de tudo o que sou. Um tanto da minha identidade cósmica também e da regência por Urano, meu planeta amante.

Vejo torto, mas vejo bem. Queria viver financeiramente de ver e escrever. E viver bem, sem faltas e com sustento para alguns sonhos.

Mas, amigos, como são difíceis, às vezes, certas conquistas. Compartilham?

mercredi, mai 06, 2009

Só um segundo.



Porque as pessoas acordam e se deitam todas no mesmo horário?


Por mais cedo que eu levanto ou mais tarde que durmo, rápido estilhaçam a conversa despudorada e sem tempo entre o humano em estado isolado (o estado isolado na história e nas religiões é chamado de sublime, nirvana, santidade, exceção, espírito, deus, iluminação os nomes e conceitos que inventam para falar do que não lembam, da elemental, natural, simples e rara solidão) pois que rápido estilhaçam a minha conversa com o ar, a luz, as coisas todas da natureza, da cidade e da casa. Conversa sem gentes nem mesmo bicho doméstico porque é à sós este prazer de sabendo que é parte, conhecer ser plenitude.

Das maiores certezas é a de que preciso ficar sozinha como a primeira e fundamental necessidade. Não é um não, não é uma recusa do outro e nem isolamento. Será na base do tempo, base no sentido de substância, no cerne do tempo, preciso estar só eu, que já é bastante coisa para ser e estar. Isto não tem a ver com sentimento, nem fatos ou costume. Em grupo todos dedicam suas atenções ao outro e num momento isto vira um jogo e uma luta entre questões pessoais relacionadas de várias formas com a capacidade e a força do poder de cativar e comandar o outro, neste momento qualquer ação pessoal como pensar e estender o corpo pela atenção dos olhos é considerada ofensa por aqueles que compartilham das horas.

Eu prefiro, também, compartilhar do que as pessoas trazem das suas imersões solitárias interiores e mergulhos solitários pelos exteriores. Na solidão estão as pessoas, como elas são. E é só e tudo o que são que me interessa.

Vamos todos ficar um tanto tempo sozinhos. Se alguém só compreende o tempo ordenado, conta um tanto tempo do dia, a cada dia.

Nos veremos depois.

Aos que sentem medo de estar só, deixem de ser bobos, bobos e estraga prazer. Prestem atenção, eu prometo que só ocorrerá o que há de muito bom.